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Podemos estar fisicamente em um lugar e, ao mesmo tempo, muito longe dele.

Foto do escritor: Vida Zen
Vida Zen
17 de ago. de 2023
4 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

Você já chegou a algum lugar e percebeu que quase não lembra do caminho que fez até ali?

Ou terminou uma refeição enquanto assistia alguma coisa no celular e mal percebeu o sabor do que estava comendo?

Talvez já tenha participado de uma conversa enquanto, mentalmente, continuava preso em outra situação.

Isso acontece porque podemos estar fisicamente em um lugar e, ao mesmo tempo, muito longe dele.

Grande parte da nossa rotina acontece assim: enquanto fazemos uma coisa, pensamos na próxima. Enquanto resolvemos um problema, antecipamos outro. E quando finalmente temos alguns minutos sem nada para fazer, quase automaticamente procuramos alguma coisa para ocupar nossa atenção.

É nesse cenário que uma prática aparentemente simples começa a fazer sentido: prestar atenção ao que está acontecendo enquanto está acontecendo.

Essa é uma das ideias centrais do mindfulness.


Afinal, o que é mindfulness?

Mindfulness costuma ser traduzido como atenção plena.

Embora tenha raízes em antigas tradições contemplativas, sua utilização contemporânea também ganhou espaço na saúde e na psicologia. Um dos nomes mais importantes nesse processo foi Jon Kabat-Zinn, que, no final da década de 1970, desenvolveu o programa conhecido como MBSR — Redução de Estresse Baseada em Mindfulness.

A partir daí, práticas de atenção plena passaram a ser estudadas e incorporadas a diferentes contextos de saúde.

Mas talvez seja mais fácil compreender mindfulness pela experiência do que pela definição.

Imagine que você esteja tomando café.

Enquanto segura a xícara, pensa na reunião que acontecerá mais tarde. Lembra de uma mensagem que precisa responder. Pega o celular. Abre uma rede social. Termina o café.

Você tomou café, mas sua atenção esteve em vários outros lugares.

Praticar atenção plena seria fazer algo diferente por alguns instantes: perceber a temperatura da xícara nas mãos, o aroma, o primeiro gole, o sabor, a respiração e os pensamentos que aparecem.

Nada extraordinário precisa acontecer.

Você apenas está ali.


Mindfulness não significa parar de pensar

Esse talvez seja um dos equívocos mais comuns.

A proposta não é esvaziar a mente.

Pensamentos vão aparecer durante uma prática. Alguns serão agradáveis. Outros poderão trazer preocupação, lembranças, planejamento ou simplesmente coisas aparentemente sem importância.

O exercício está em perceber que você começou a seguir aquele pensamento e, quando possível, retornar sua atenção para aquilo que escolheu observar.

Pode ser a respiração.

O corpo.

Os sons.

Ou simplesmente aquilo que você está fazendo naquele momento.

Com a prática, começamos a perceber algo interessante: nem todo pensamento precisa imediatamente de uma resposta.

Pensar alguma coisa não significa necessariamente que precisamos agir sobre aquilo.

Sentir uma emoção também não significa que precisamos reagir automaticamente a ela.

Entre perceber e reagir pode existir um pequeno espaço.

E esse espaço pode fazer diferença.


O que sabemos sobre mindfulness?

Nas últimas décadas, mindfulness passou a ser bastante estudado, principalmente em programas estruturados voltados ao manejo do estresse, ansiedade e outros aspectos relacionados à saúde emocional.

Os resultados encontrados pela pesquisa científica são promissores, especialmente para redução do estresse e de alguns sintomas de ansiedade e para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à atenção e à regulação emocional.

Mas é importante colocar isso em perspectiva.

Mindfulness não é uma solução universal.

Não substitui psicoterapia ou acompanhamento médico quando eles são necessários e não funciona da mesma maneira para todas as pessoas.

Também não existe a obrigação de terminar uma prática sentindo-se completamente tranquilo.

Às vezes, quando diminuímos o ritmo, percebemos justamente aquilo que a correria estava ajudando a esconder: preocupação, tensão, tristeza, cansaço.

A atenção plena não precisa eliminar essas experiências.

Ela pode nos ajudar a percebê-las de outra maneira.


Você não precisa separar vinte minutos do seu dia

Quando pensamos em meditação, é comum imaginar alguém sentado em silêncio, olhos fechados e completamente imóvel.

Essa é uma possibilidade.

Não é a única.

Mindfulness também pode aparecer no cotidiano.

Na próxima vez que tomar banho, por exemplo, experimente realmente estar no banho por alguns minutos.

Perceba a temperatura da água.

O contato com a pele.

Os sons.

Quando notar que começou mentalmente a organizar o restante do dia, volte para a experiência.

O mesmo pode acontecer durante uma caminhada.

Ou enquanto prepara uma refeição.

Ou enquanto toma café.

Até lavar a louça pode se transformar em um exercício de atenção — não porque lavar louça tenha alguma propriedade terapêutica especial, mas porque você decidiu estar presente naquilo que está fazendo.


Uma prática de três minutos

Se quiser experimentar de uma maneira um pouco mais estruturada, escolha um lugar onde possa permanecer alguns minutos sem interrupções.

Sente-se confortavelmente.

Não precisa mudar sua respiração.

Primeiro, apenas perceba como ela está.

Observe a entrada e a saída do ar.

Talvez você perceba o movimento no peito ou no abdômen. Talvez seja mais fácil sentir o ar passando pelas narinas.

Permaneça observando.

Em algum momento você provavelmente começará a pensar em outra coisa.

Quando perceber, não precisa se irritar nem pensar que fez algo errado.

Reconheça que sua atenção foi embora.

E volte para a respiração.

Depois ela vai embora novamente.

E você volta.

É a prática.


E se levarmos essa atenção para além da meditação?

Talvez uma das partes mais interessantes do mindfulness aconteça justamente quando levantamos da cadeira.

Quando conseguimos perceber que estamos ficando irritados antes de responder alguém.

Quando reconhecemos que estamos tensos antes que o dia termine.

Quando comemos e realmente sentimos que estamos satisfeitos.

Quando escutamos uma pessoa sem preparar mentalmente nossa resposta enquanto ela ainda está falando.

Ou quando percebemos que estamos cansados.

Parece pouco.

Mas boa parte da nossa vida acontece enquanto estamos pensando no que aconteceu ontem ou tentando antecipar o que poderá acontecer amanhã.

Não podemos permanecer no presente o tempo inteiro. Nem precisamos.

Planejar, lembrar e imaginar também fazem parte da experiência humana.

Talvez a proposta seja apenas conseguir voltar de vez em quando.

Para a respiração.

Para o corpo.

Para a conversa.

Para o café ainda quente diante de você.

Para aquilo que está acontecendo agora.

Porque enquanto a mente percorre todos os lugares possíveis, a vida continua acontecendo exatamente aqui.

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