Minha mente não para. Ainda assim, posso meditar?

Você fecha os olhos, tenta prestar atenção na respiração e, poucos segundos depois, já está pensando no trabalho.
Lembra de uma mensagem que esqueceu de responder. Da conta que vence amanhã. Do que precisa comprar no supermercado. De uma conversa que aconteceu pela manhã.
Então vem o pensamento: “Eu não consigo meditar.”
Se isso já aconteceu com você, talvez o problema não esteja na sua capacidade de meditar, mas na ideia que criamos sobre o que deveria acontecer durante uma meditação.
A mente pensa. É isso que ela faz.
Meditar não significa desligá-la.
Então, o que acontece durante a meditação?
Uma das formas mais simples de compreender a meditação é pensar nela como um exercício de atenção.
Você escolhe algo para observar — pode ser a respiração, uma sensação do corpo, um som ou até os movimentos de uma caminhada.
Em algum momento, sua atenção vai embora.
Você começa a pensar no almoço, no trabalho ou em alguma preocupação.
Então percebe que se distraiu e retorna.
É justamente esse movimento de perceber e voltar que faz parte da prática.
Não é necessário brigar com o pensamento, tentar expulsá-lo ou ficar irritado porque ele apareceu.
Você percebe.
E volta.
Quantas vezes forem necessárias.
“Mas eu sou muito agitado para ficar parado”
Tudo bem.
Meditação não precisa começar com vinte minutos sentado em silêncio.
Para algumas pessoas, inclusive, começar dessa maneira pode tornar a experiência mais difícil do que precisa ser.
Existem outras possibilidades.
Experimente meditar caminhando.
Escolha um espaço tranquilo e caminhe mais devagar do que normalmente caminharia.
Em vez de pensar em chegar a algum lugar, perceba o próprio ato de caminhar.
Sinta o pé tocando o chão. Observe a transferência do peso do corpo. Perceba o movimento das pernas e o ritmo da respiração.
Quando perceber que começou a pensar em outra coisa, simplesmente volte para os passos.
Você continua em movimento, mas sua atenção começa a desacelerar.
Experimente perceber o corpo.
O escaneamento corporal, também conhecido como body scan, pode ser feito sentado ou deitado.
Comece levando a atenção para os pés.
Não precisa necessariamente relaxá-los. Primeiro, apenas perceba.
Existe tensão? Calor? Frio? Alguma parte do corpo encostando na cama ou na cadeira?
Depois vá subindo lentamente: pernas, quadril, abdômen, mãos, braços, ombros, pescoço e rosto.
Às vezes descobrimos tensões que estavam ali há horas e só percebemos quando finalmente prestamos atenção.
E, nos dias mais corridos, simplesmente volte para onde você está.
Existe uma técnica de ancoragem bastante conhecida que utiliza os cinco sentidos. Ela não é exatamente uma prática tradicional de meditação, mas pode ser um recurso interessante para interromper por alguns instantes o funcionamento no “piloto automático”.
Olhe ao seu redor e perceba:
5 coisas que consegue ver;4 coisas que consegue tocar ou sentir;3 sons que consegue ouvir;2 cheiros que consegue perceber;1 sabor presente naquele momento.
Não precisa fazer rápido.
A proposta é justamente perceber aquilo que normalmente passa despercebido.
E como transformar isso em hábito?
Talvez começando menor do que você imagina.
Dois ou três minutos todos os dias podem ser um começo muito mais possível do que decidir, de uma hora para outra, que você vai meditar vinte minutos diariamente.
Também ajuda associar a prática a alguma coisa que já faz parte da sua rotina.
Depois do café da manhã.
Antes de começar o trabalho.
Ao chegar em casa.
Antes de dormir.
Com o tempo, aquele pequeno momento começa a encontrar seu próprio lugar no dia.
Meditações guiadas também podem ajudar bastante no início, principalmente quando permanecer sozinho em silêncio ainda parece difícil.
Você não precisa meditar perfeitamente
Talvez esse seja o ponto mais importante.
Haverá dias em que você vai se sentir tranquilo. Em outros, vai passar praticamente toda a prática pensando.
Isso não significa que “deu errado”.
Nossa mente não chega igual todos os dias porque nós também não chegamos iguais todos os dias.
Meditar é, entre outras coisas, aprender a perceber isso sem transformar cada pensamento, sensação ou distração em um problema que precisa ser resolvido.
Então, da próxima vez que estiver meditando e perceber que sua mente foi parar muito longe, não precisa começar novamente nem se cobrar por ter se distraído.
Perceba onde ela foi.
Respire.
E volte.
Talvez a prática esteja justamente aí.




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