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Por que é tão difícil mudar um hábito, mesmo quando sabemos que ele não nos faz bem?

Foto do escritor: Vida Zen
Vida Zen
6 de jan. de 2023
6 min de leitura

Atualizado: 8 de set.



Quantas vezes você já decidiu que, a partir de segunda-feira, alguma coisa seria diferente? Dormir mais cedo, mexer menos no celular, voltar a fazer atividade física, organizar melhor a alimentação ou simplesmente parar de adiar aquilo que precisa ser feito.

Nos primeiros dias, existe disposição. Às vezes compramos alguma coisa para marcar o começo da mudança, organizamos horários e pensamos que “agora vai”. Algum tempo depois, porém, percebemos que estamos fazendo exatamente aquilo que havíamos decidido mudar.

É muito fácil interpretar esse momento como falta de disciplina ou força de vontade. Mas hábitos são um pouco mais complexos do que isso. Quando um comportamento foi repetido muitas vezes em determinados contextos, ele começa a acontecer com cada vez menos necessidade de decisão consciente. É justamente essa característica que torna os hábitos tão úteis no cotidiano e, ao mesmo tempo, tão difíceis de modificar.


O que chamamos de hábito?

De maneira simples, podemos pensar em um hábito como um comportamento que, por ter sido repetido muitas vezes em situações semelhantes, passa a ser realizado com certo grau de automatismo. Não precisamos decidir conscientemente cada pequeno passo de tudo aquilo que fazemos durante o dia, e isso economiza esforço e atenção.

O problema aparece quando um comportamento automatizado deixa de combinar com aquilo que queremos para nossa vida. Imagine alguém que deseja dormir mais cedo, mas todas as noites leva o celular para a cama. A intenção é conferir algumas mensagens por cinco minutos. Depois aparecem os vídeos, as redes sociais, uma notícia interessante e mais um conteúdo recomendado. Quando percebe, passou uma hora.

Nesse caso, dizer apenas “preciso parar de usar o celular à noite” identifica o comportamento, mas ainda explica muito pouco sobre ele. Para entender melhor o hábito, precisamos observar o que acontece antes, durante e depois.


O que mantém um hábito?

Charles Duhigg tornou bastante conhecida, em seu livro O Poder do Hábito, uma maneira simples de visualizar esse processo a partir de três elementos: o gatilho, a rotina e a recompensa. Embora a formação de hábitos seja mais complexa do que esse modelo sozinho consegue explicar, ele pode ser um bom ponto de partida para observar o próprio comportamento.

O gatilho é aquilo que favorece o início de determinada ação. Pode ser um horário, um lugar, uma emoção, uma pessoa ou até outro comportamento. No exemplo do celular, deitar na cama e perceber o aparelho ao alcance da mão já pode fazer parte desse contexto.

A rotina é o comportamento propriamente dito: pegar o celular, abrir uma rede social, assistir a vídeos e continuar navegando. Já a recompensa está relacionada àquilo que torna essa experiência suficientemente interessante para ser repetida. Pode ser entretenimento, distração, curiosidade, contato social ou simplesmente uma maneira de adiar o momento de dormir.

Por isso, quando queremos modificar um hábito, uma pergunta importante não é apenas “por que eu faço isso?”, mas também “o que esse comportamento está fazendo por mim naquele momento?”


Saber que faz mal nem sempre é suficiente

Esse é um dos aspectos mais frustrantes da mudança de hábitos. Podemos conhecer perfeitamente as consequências de um comportamento e continuar repetindo-o.

Alguém pode saber que dormir pouco prejudica seu dia seguinte e ainda permanecer acordado até tarde. Pode querer diminuir o consumo de determinados alimentos e procurá-los justamente quando está cansado ou estressado. Pode perceber que passa tempo demais nas redes sociais e, ainda assim, abrir o aplicativo quase automaticamente sempre que aparece um minuto livre.

Isso acontece porque informação e comportamento não são a mesma coisa. Conhecer uma consequência é importante, mas nossas escolhas também são influenciadas pelo ambiente, pelas emoções, pelo acesso às alternativas e pelas consequências mais imediatas de cada ação.

Existe ainda uma diferença de tempo que pesa bastante nessa equação. Muitas mudanças que desejamos trazem benefícios no futuro, enquanto o comportamento que queremos abandonar oferece alguma recompensa agora. Dormir melhor amanhã compete com mais meia hora de entretenimento hoje. Melhorar a alimentação ao longo dos meses compete com algo disponível e prazeroso neste momento.

Quando entendemos isso, a pergunta deixa de ser simplesmente “por que não tenho força de vontade?” e passa a ser “como posso organizar minha rotina para tornar a escolha que desejo um pouco mais possível?”


Mudar o ambiente também é mudar o comportamento

Se você decidiu diminuir o uso do celular antes de dormir, mas continua deixando o aparelho ao lado do travesseiro, dependerá todas as noites da decisão de não pegá-lo. Talvez seja mais fácil carregá-lo longe da cama ou estabelecer um horário para deixá-lo de lado.

A mesma lógica pode ser aplicada a outros hábitos. Se queremos consumir determinados alimentos com maior frequência, ajuda tê-los disponíveis e fáceis de preparar. Se queremos voltar a caminhar pela manhã, deixar roupa e tênis organizados na noite anterior elimina algumas pequenas decisões. Se queremos ler mais, colocar o livro em um lugar visível pode facilitar o início.

Nenhuma dessas estratégias garante uma mudança, mas elas reduzem a quantidade de obstáculos entre intenção e comportamento. Em vez de exigir força de vontade o tempo inteiro, começamos a fazer com que o próprio ambiente trabalhe um pouco a favor daquilo que queremos construir.


Começar menor pode ser mais inteligente

Outro erro bastante comum é tentar mudar muitas coisas ao mesmo tempo. A pessoa decide que vai acordar cedo, fazer exercício diariamente, abandonar açúcar, beber mais água, meditar, ler e dormir às dez da noite. Durante alguns dias, a motivação sustenta esse projeto. Quando a rotina real reaparece, tudo começa a ficar difícil.

Uma mudança pequena pode parecer menos empolgante, mas geralmente é mais fácil de repetir. Se alguém está completamente sedentário, por exemplo, talvez começar com uma caminhada possível dentro da própria rotina faça mais sentido do que estabelecer imediatamente um plano que exige uma reorganização completa da vida.

O mesmo vale para outras mudanças. A pergunta inicial pode ser: qual é a menor versão desse comportamento que eu consigo repetir com alguma regularidade? Depois que existe consistência, podemos ampliar.


E quando voltamos ao hábito antigo?

Talvez esse seja um dos momentos mais importantes do processo.

Imagine alguém que está tentando modificar a alimentação e, depois de algumas semanas, passa um fim de semana completamente fora da rotina. É comum surgir um pensamento do tipo: “estraguei tudo”. A partir daí, um episódio pontual pode virar abandono completo do processo.

Mas mudança de hábito raramente acontece em uma linha reta. Contextos mudam, viagens acontecem, semanas ficam mais difíceis, emoções interferem e comportamentos antigos podem reaparecer.

Em vez de interpretar isso imediatamente como fracasso, pode ser mais útil observar o que aconteceu. Houve alguma mudança na rotina? O comportamento antigo ainda oferece uma recompensa que não encontramos de outra maneira? A meta estava grande demais? O ambiente facilitou a escolha anterior? O que poderia ser ajustado na próxima vez?

Essa análise costuma ensinar muito mais do que simplesmente se culpar.


Hábitos também precisam fazer sentido para você

Existe ainda uma pergunta anterior a todas as estratégias: por que você quer mudar?

Às vezes tentamos construir hábitos porque alguém disse que deveríamos, porque estamos nos comparando com outras pessoas ou porque determinado comportamento virou símbolo de uma suposta “vida saudável”.

Mas mudanças sustentáveis precisam encontrar algum sentido na vida real.

Talvez você queira dormir mais cedo porque percebe que fica irritado quando dorme pouco. Talvez queira se movimentar mais porque sente falta de disposição. Talvez queira diminuir o tempo nas redes sociais porque percebe que está deixando outras coisas importantes de lado.

Quando existe clareza sobre aquilo que estamos tentando construir, a mudança deixa de ser apenas uma lista de proibições e começa a apontar para alguma coisa que realmente importa.


Mudar hábitos é aprender sobre o próprio comportamento

Talvez seja mais útil abandonar a ideia de que mudar depende de finalmente encontrar disciplina suficiente. Podemos começar observando o comportamento com mais curiosidade: quando ele acontece, o que costuma vir antes, o que encontramos nele e quais situações tornam mais difícil fazer diferente.

A partir daí, podemos experimentar pequenas mudanças, ajustar o ambiente, criar alternativas e repetir aquilo que funciona. Algumas estratégias precisarão ser revistas no caminho, e outras simplesmente não combinarão conosco.

Isso não significa que todo hábito será fácil de modificar. Alguns comportamentos envolvem questões emocionais, condições de saúde ou padrões mais complexos e podem precisar de acompanhamento profissional. Mas mesmo nesses casos, compreender o contexto continua sendo mais útil do que reduzir tudo a uma suposta falta de força de vontade.

No fim, talvez a mudança comece menos com a promessa de que “segunda-feira será diferente” e mais com uma pergunta feita com alguma atenção: o que, na minha rotina de hoje, torna esse comportamento tão fácil de repetir — e o que posso modificar para começar a fazer diferente?



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