Inteligência emocional: você não precisa controlar tudo o que sente

Atualizado: 8 de set.
Alguém fala alguma coisa que incomoda você.
A resposta vem quase imediatamente. Você aumenta o tom de voz, manda aquela mensagem ou diz algo que, alguns minutos depois, gostaria de ter dito de outra maneira.
Em outras situações, acontece o contrário.
Você não fala nada.
Vai acumulando incômodos, evita uma conversa necessária e continua repetindo mentalmente aquilo durante horas.
As duas situações têm algo em comum: existe uma emoção acontecendo e, de alguma maneira, estamos tentando lidar com ela.
É nesse espaço entre sentir e agir que podemos começar a falar sobre inteligência emocional.
Inteligência emocional não significa controlar as emoções
Esse é um ponto importante.
Às vezes, inteligência emocional é apresentada como a capacidade de permanecer tranquilo independentemente do que aconteça.
Não é bem assim.
Uma pessoa emocionalmente inteligente também sente raiva. Fica frustrada. Sente medo, insegurança, ciúme, tristeza e ansiedade.
Emoções não são defeitos que precisam ser corrigidos.
Elas fazem parte da maneira como percebemos e respondemos ao mundo.
O que podemos desenvolver é a capacidade de reconhecer aquilo que estamos sentindo, compreender o contexto daquela emoção e escolher melhor o que fazer a partir dela.
Parece simples quando colocado no papel.
Na vida real, nem sempre é.
Primeiro, precisamos perceber
Imagine que você esteja em uma reunião e alguém critique uma ideia que acabou de apresentar.
Seu corpo talvez responda antes mesmo de você organizar um pensamento.
O rosto esquenta.
O coração acelera.
Surge tensão nos ombros.
E aparece uma vontade imediata de se defender.
Perceber esses sinais pode parecer algo pequeno, mas é uma habilidade importante.
Porque quando não percebemos o que está acontecendo conosco, existe uma chance maior de simplesmente reagirmos.
Autoconhecimento emocional começa justamente por aí.
Não apenas perguntando “o que estou sentindo?”, mas também:
“O que aconteceu para eu me sentir assim?”
“O que meu corpo está mostrando?”
“O que estou com vontade de fazer agora?”
Sentir raiva não obriga você a agir com raiva
Reconhecer uma emoção é diferente de obedecer a ela.
Você pode estar irritado e decidir esperar alguns minutos antes de responder uma mensagem.
Pode estar ansioso e ainda assim participar de uma reunião importante.
Pode sentir medo de uma conversa e escolher realizá-la.
Pode ficar frustrado com alguém sem transformar essa frustração em agressividade.
Isso é autorregulação.
Não significa reprimir aquilo que sentimos ou fingir que está tudo bem.
Significa criar algum espaço entre a emoção e a resposta.
Às vezes esse espaço dura alguns minutos.
Às vezes é apenas uma respiração antes de responder.
Mas já pode ser suficiente para que a reação automática dê lugar a uma escolha um pouco mais consciente.
E quando a emoção é do outro?
Inteligência emocional também aparece na maneira como nos relacionamos.
Pense em alguém contando um problema para você.
É muito comum, antes mesmo que a pessoa termine, começarmos a procurar uma solução.
“Você deveria fazer isso.”
“Eu no seu lugar faria aquilo.”
“Não fica assim.”
Talvez naquele momento a pessoa nem esteja procurando uma resposta.
Talvez precise apenas ser escutada.
Empatia não significa concordar com tudo ou assumir para nós o sofrimento do outro. Significa conseguir reconhecer que aquela pessoa está vivendo uma experiência a partir da própria história, das próprias necessidades e da maneira como interpreta aquela situação.
E isso muda a qualidade de uma conversa.
No trabalho, inteligência emocional também tem limite
Esse tema aparece muito no ambiente profissional.
É comum ouvirmos que trabalhadores precisam desenvolver inteligência emocional para lidar com pressão, conflitos, cobranças e mudanças.
E desenvolver essas habilidades realmente pode ajudar.
Saber conversar diante de um conflito, receber uma crítica sem reagir imediatamente, comunicar limites, pedir ajuda e reconhecer o próprio estado emocional são competências importantes.
Mas existe um cuidado necessário nessa conversa.
Inteligência emocional não deve ser utilizada para ensinar pessoas a tolerar ambientes de trabalho inadequados.
Nenhuma habilidade individual transforma assédio em algo aceitável.
Nenhuma técnica de autorregulação resolve uma sobrecarga permanente de trabalho.
E não podemos chamar de falta de resiliência aquilo que, algumas vezes, é consequência de condições de trabalho que precisam ser revistas.
Desenvolver pessoas é importante.
Cuidar do ambiente em que elas trabalham também.
Algumas perguntas podem ajudar
Você não precisa começar fazendo um diário emocional complexo ou tentando analisar cada sentimento que aparece durante o dia.
Pode começar prestando atenção em situações que se repetem.
Quando alguma coisa incomodar você, experimente perguntar:
O que estou sentindo agora?
Depois:
O que aconteceu imediatamente antes disso?
E talvez a pergunta mais importante:
O que estou com vontade de fazer e o que realmente quero fazer?
Existe uma diferença importante entre essas duas últimas respostas.
É nela que muitas escolhas começam a aparecer.
Inteligência emocional também se aprende nas pequenas situações
Ela aparece quando você percebe que está irritado e decide não continuar uma discussão naquele momento.
Quando consegue dizer que algo incomodou em vez de esperar que o outro adivinhe.
Quando escuta sem imediatamente tentar corrigir.
Quando reconhece que precisa pedir ajuda.
Quando admite que errou.
E até quando percebe que determinada situação ultrapassou aquilo que consegue administrar sozinho.
Não precisamos acertar sempre.
Aliás, talvez uma parte importante da inteligência emocional seja justamente conseguir olhar para uma reação depois que ela aconteceu e pensar:
“Eu poderia ter feito isso de outra maneira.”
Sem transformar essa percepção em culpa.
Mas também sem fugir da responsabilidade.
Na próxima situação, talvez exista uma oportunidade de responder diferente.
É assim que esse aprendizado acontece: não pela ausência de emoções difíceis, mas pela maneira como começamos a nos relacionar com elas.
Porque equilíbrio emocional não é nunca perder o equilíbrio.
É também aprender a perceber quando ele se perdeu — e encontrar caminhos para voltar.




Comentários